Anomalias Uterinas: Útero unicorno, bicorno, didelfo e septado

O útero é formado pela fusão dos ductos de Müller. Alterações no processo de embriogênese podem levar a uma série de malformações uterinas. As malformações uterinas congênitas podem estar associadas ao abortamento habitual, parto prematuro, apresentações fetais anômalas e infertilidade. As anomalias uterinas congênitas que resultam de defeitos Müllerianos são os tipos mais comuns de malformações do aparelho reprodutor.

As anomalias uterinas são responsáveis por 15% das perdas gestacionais do segundo trimestre e também estão associadas com apresentação fetal anormal, descolamento prematuro de placenta e retardo de crescimento intra-uterino. As anomalias uterinas são classificadas de acordo com uma modificação da classificação de Buttram e Gibbons (1979) em úteros : unicorno, bicorno, didelfo e septado.
Entre os diferentes tipos de anomalias uterinas estruturais, o útero septado é o mais comum, estando associado a um prognóstico reprodutor ruim, com taxas de sobrevida fetal entre 6 e 28% e uma alta taxa de abortos espontâneos (maior que 60%). Estima-se que entre 10 e 12% das pacientes com útero septado tenham abortamentos de repetição.

Risco de abortamento de causa anatômica segundo a anomalia uterina
Anomalia Uterina
Risco de Abortamento (%)
Septado
67
Didelfo
43
Bicorno
35
Unicorno
33
Associado ao DES
32

Prevalência

A prevalência do útero septado nas diferentes populações, incluindo mulheres férteis, inférteis e com abortamento habitual é muito variável, principalmente devido aos diferentes métodos diagnósticos utilizados nos estudos. Em muitos estudos não há uma diferenciação confiável do útero septado e bicorno.
De uma forma geral, admite-se que a prevalência do útero septado nas mulheres férteis e inférteis seja semelhante — em torno de 1%. A prevalência nas mulheres com abortamento habitual aumenta muito, atingindo até 3,3%.

Anormalidades urológicas associadas

O desenvolvimento do sistema urinário e genital é dependente do adequado desenvolvimento do sistema mesonéfrico. Portanto, não é incomum a associação de malformações urológicas com anormalidades uterinas estruturais congênitas.
Várias anormalidades do trato urinário têm sido descritas: rim solitário; duplicação ureteral; duplicação do sistema pielocalicial com ptose renal unilateral.

Diagnóstico

Histerossalpingografia (HSG)

A histerossalpingografia permite a avaliação do tamanho e extensão do septo. Mostra uma imagem de duas hemi-cavidades com uma divisão central, mostrando uma forma típica em Y.

Nos úteros bicorno e didelfo, as hemicavidades têm suas paredes mediais convexas e o ângulo entre eles geralmente maior que 90º; no útero septado as paredes uterinas mediais (do septo) são mais retas e o ângulo resultante é geralmente menor que 90º. Essa diferenciação, entretanto, nem sempre é clara.
Uma das vantagens da HSG é a possibilidade de avaliação concomitante da permeabilidade tubária.


Tipo de anomaliaHisterossalpingografia
SeptadoDuplicação completa ou parcial dos cornos uterinos.
Não diferencia do útero bicorno.
BicornoDuplicação completa ou parcial dos cornos uterinos.
Não diferencia do útero bicorno.
DidelfoDuplicação cervical ao exame clínico.
Contraste da cavidade de cada corno.
UnicornoCavidade única.
Desvio lateral do útero.
ArqueadoCanal cervical único.
Cavidade fúndica com saliência.

Histeroscopia

Permite a observação direta da cavidade uterina. É considerado o melhor método para o diagnóstico de anormalidades intra-uterinas, incluindo os septos. Qualquer lesão endometrial pode ser biopsiada e até mesmo retirada. Entretanto, como a histeroscopia não fornece informações da superfície externa uterina, a diferenciação entre o útero bicorno e o útero septado nem sempre é possível. Além disso, não fornece informações sobre as trompas uterinas.
A histeroscopia tem se mostrado superior à histerossalpingografia no diagnóstico de algumas anormalidades intra-uterinas, incluindo o septo uterino. Além do mais, a histeroscopia permite, em alguns casos, realizar o tratamento concomitantemente ao diagnóstico.

Ultra-sonografia (USG)
A USG pode ser útil no diagnóstico do septo uterino, especialmente em gestantes, quando a maioria dos métodos estão contra-indicados. A Ultra-sonografia transvaginal permite uma melhor avaliação quando comparada com a via transabdominal, com uma especificidade de até 80% no diagnóstico do útero septado.


Tipo de AnomaliaUltra-sonografia
SeptadoContorno uterino convexo, achatado ou pouco deprimido (< ou = 1 cm). Massa ecogênica dividindo a cavidade endometrial com ecotextura semelhante ao miométrio adjacente;
Septo parcial (divisão incompleta da cavidade uterina) ou total (extensão ao canal cervical);
Porção distal do septo hipoecóico, compatível com tecido fibroso.
BicornoFenda em fundo uterino (> 1 cm);
Contornos uterinos divergentes;
Colo único.
DidelfoCornos uterinos separados e divergentes;
Fenda em fundo uterino;
Duplicação cervical.
UnicornoVolume uterino reduzido;
Configuração elipsoidal assimétrica.
ArqueadoContorno do fundo normal;
Leve saliência da cavidade;
Sem divisão dos cornos uterinos.

Ressonância Magnética (RM)

A RM também tem sido utilizada na diferenciação dos úteros com anomalias estruturais. Permite a correta classificação das malformações e a identificação de outras doenças ginecológicas associadas.
A RM é o exame que permite a classificação do útero septado e a obtenção de informações sobre o septo — a proporção relativa de tecido miometrial e fibroso. Entretanto, quando comparada com a ultra-sonografia, mais sensível e de menor custo, seu uso muitas vezes não se justifica.
Na atualidade, a RM ainda está restrita ao uso em centros de referências para pesquisa.


Tipo de AnomaliaRessonância Magnética
SeptadoContorno uterino convexo, achatado ou pouco deprimido (< ou + 1 cm);
Divisão completa ou parcial da cavidade endometrial por massa sólida;
Intensidade de sinal no septo semelhante ao do miométrio;
Porção distal do septo com sinal de baixa intensidade compatível com tecido fibroso.
BicornoFenda em fundo uterino (> 1 cm);
Cornos uterinos divergentes;
Colo único.
DidelfoSeparação completa dos cornos uterinos;
Fenda em fundo uterino;
Dois colos;
Septo vaginal.
UnicornoVolume uterino reduzido;
Configuração assimétrica;
Pode-se visualizar corno rudimentar atrésico.
ArqueadoContorno externo do fundo uterino normal;
Leve saliência da cavidade, na face endometrial fúndica;
Sem duplicação uterina.

Laparoscopia e Histeroscopia

Essa abordagem é a melhor forma de avaliar e classificar as anormalidades uterinas congênitas, sendo especialmente útil na diferenciação entre o útero bicorno e o útero septado. Uma região fúndica larga é típica do útero septado, enquanto a imagem de dois cornos separados é característica do útero bicorno.
Nas mulheres que apresentam infertilidade concomitante, a laparoscopia é útil na complementação da investigação diagnóstica, fornecendo uma oportunidade para o tratamento de doenças coexistentes, como a endometriose.

Conclusão

Os exames que fornecem informações pela visualização da cavidade uterina (histeroscopia) ou de seu contorno (histerossalpingografia) podem detectar as anormalidades uterinas congênitas. Entretanto, para classificar esses defeitos e, principalmente, para diferenciar entre o útero septado e bicorno, é necessário visualizar a superfície externa do útero. Apesar de alguns exames (USG tridimensional e USG transvaginal) serem exames de grande importância na prática clínica (particularmente em gestantes), a laparoscopia (em especial quando combinada com a histeroscopia) ainda é o melhor método para avaliar a superfície externa do útero.

Fonte: Medcenter


* As informações disponíveis são meramente informativas, os comentários respostas são informações leigas e não substituem a Consulta Médica!
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7 comentários:

  1. Olá, tenho muitas dúvidas sobre útero bicorno

    Há alguns anos eu passei por uma cirurgia para retirada de teratoma nos dois ovários, nessa ocasião fiz diversos exmaes (ultrasom, ressonacia etc..) até chegar a videolaparoscopia e em todos os exames meu útero aparece com formas normais. Estou gestante e na minha primeira ultrassom o médico disse que tenho útero bicorno, é possível nunca ninguém ter conseguido ver isso?

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    1. Oi, realmente é bem estranho, o melhor é conversar com o médico, talvez levar exames anteriores para que ele explique melhor.

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  2. qual é a idade certa pra ter um bebe com o utero arqueado pq eu nao quero q nasça prematuro?

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    1. Oi, a idade não influencia diretamente em alterações na anatomia do útero. A avaliação e o acompanhamento médico desde antes de tentar engravidar é que serão importantes para isso.

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  3. oi tenho dois uteros e apenas um rim qual o nome desse utero?

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    1. acredito que seja o útero bicorno, que é dividido em dois, mas o melhor é conversar com seu médico para que ele avalie corretamente.

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  4. Útero unicorno com corno rudimentar.
    Olá, meninas!
    Descobri o Útero Unicorno recentemente.
    Havia acabado de trocar de GO, antes de saber do diagnóstico. Como parte da rotina do doutor, ele solicitou vários exames para investigar possível infertilidade. Foi em um desses exames que fui diagnosticada com Útero Unicorno.
    O dr foi muito profissional, me explicou todas as consequências da má formação, e me tranquilizou muito em relatar a experiência dele no assunto.
    Além de especialista, ele é autor de livro de medicina e sua contribuição, juntamente com outros médicos especialista, era justamente sobre essas más formações uterinas.
    O dr explicou que, por ser um caso raro, existem poucos estudos científicos sobre esse assunto, e por isso, muitas das coisas que eu encontraria na internet, não teriam o devido embasamento científico.
    Ele solicitou outros exames específicos, para ter mais informações sobre o diagnósticos e verificar possíveis tratamentos. No meu caso, a melhor solução foi fazer uma cirurgia, pois isso reduziria o risco de futuras gestações ectópicas, ou de abortamento.
    Estou me recuperando da cirurgia e estou muito contente com o tratamento que recebi. Toda a equipe foi muito profissional, desde o médico, os médicos auxiliares, anestesista, inclusive as secretárias da clínica que me ajudaram com toda a burocracia do agendamento da cirurgia, da documentação dos procedimentos de reembolso do plano de saúde.
    Acredito que cada caso é um caso diferente, e que é muito importante todos terem o devido e adequado acompanhamento médico, principalmente quando se trata de uma anomalia rara, como a nossa, e que tem poucos estudos médicos publicados.
    Para terem uma ideia, passei por umas 8 go antes de encontrar esse médico, e nenhum dos anteriores tinha diagnosticado essa má formação.
    Espero ter contribuído de alguma forma.
    Para quem tiver interesse de marcar uma consulta com o meu go, deixo o contato dele: http://www.aliraclinica.com.br/ doutor Tomyo Arazawa, formado e especializado pela USP - Universidade de São Paulo, e parte do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês.

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